Episódio 0
Num mundo em constante correria, todos à procura dos preços mais baixos, resta-me a mim, o narrador, para selecionar uma história de amor e descrevê-la como a mais bonita. Neste momento um individuo acabou de pagar as compras na caixa 3. Vou-me dirigir a ele e perguntar-lhe: Fala-me do teu amor.
- Do meu amor? Porque não falas tu do teu?
Eu sou narrador, a minha função é entender o teu amor pelo teu amor, e descrever tudo o que vai para lá das tuas falas, tudo o que não dizes mas encontro necessidade em não ficar omitido.
- Mas isso impede o narrador de sentir um amor?
Muitos amores eu já narrei, e em muitos deles eu senti o amor narrado. Vejo que não queres falar do teu amor.
- Sim, é meu. Não sei se o irias narrar com a mesma intensidade que o sinto. Como irias narrar a temperatura?
A temperatura do teu amor será algo quente, que te aquece o coração e alma nos momentos mais frios.
- Estás a ver, nem a temperatura consegues narrar. Não é sobre quente ou frio. É sobre o que sinto quando pego na mão do meu amor. O contraste. A sensação do calor de vento parado. O fresco da sombra entre os dedos que suam. Ou a brisa provocada pelo deslizar dos meus dedos pela palma da mão dela.
Então vou descrever que tem uma temperatura harmoniosa. Cada toque nela provoca uma quente emoção.
- É verdade, mas narrado assim parece frio. Quando tenho o privilégio de a poder massajar, a temperatura da pele dela varia entre o alivio de dor e a ternura de um relaxamento. E quando abraço o meu amor, a temperatura que sinto ronda o elevado envolvimento na escala de solitário.
Parece que encontrei alguém diferente. A personagem fala mais sobre ela do que com ela. Estaremos num caso de amor platónico? Será que na verdade nunca foi por ti abraçada.
- Já foi sim. E agora também já abracei, ela é que não se sente ainda abraçada.
É então um amor platónico em que o teu amor sabe que é o teu amor, mas não se sente querer ser o teu amor! Assim estás-me a complicar a narração. Queres antes vir tu para aqui e descreves logo na primeira pessoa?
- Eu? Não. Tu é que decidiste querer falar do meu amor em vez de falar de um amor teu.
Tens que entender duas coisas, nós os narradores temos o celibato como os padres, apenas vivemos os amores dos outros, e não precisamos de um "-" no início da frase quando queremos falar.
Dito isto, vou tentar descrever o que imagino que possa ser o teu amor.
- Boa sorte!!!
Algo como um andar sobre tecidos esticados e suspensos. Onde caminhar é quase impossível, mas onde cair sabe bem. Onde apetece rebolar em vez de levantar.
- Estás a melhorar. Consegues adicionar alegria nisso?
Sim, os tecidos tem flores pintadas e um fundo de mar, que irradiam o melhor perfume do amaciador de cada corredor de detergentes.
- Onde está a alegria nisso? Estás a tentar usar a narração do meu amor para divulgar alguma marca de amaciador?
Acompanha o teu amor da próxima vez no corredor de detergentes. Quando ela, após experimentar o cheiro de todos os amaciadores, selecionar um e ficar a imaginar o cheiro final na roupa lavada, vai sorrir. Um sorriso no presente devido a um acontecimento que só irá ocorrer no futuro. Entendeste agora a ideia?
- E como concluíste que o meu amor absorve emoções como a alegria num simples cruzamento com um corredor?
Não só o teu amor. Todos os mundanos absorvem emoções quando cruzam os corredores da vida, levantam pedras ou são colocados perante filas na vida.
- Sim, foi numa fila...
Como assim numa fila? Estás a falar da fila para pagar na caixa 3? Tiveste alguma emoção pelos preços reduzidos?
- Não narrador. Outra fila. Uma fila onde o meu amor sorria. Onde nem eu sabia que o meu amor iria ser meu amor. Um instante platónico primórdio. Um sorriso no presente devido a um hipotético acontecimento que só por muito acaso aconteceu no futuro.
Senti agora na personagem uma partilha sobre o seu amor. Um amor platónico que deixou de o ser e portanto não é mais.
- Já voltaste a narrar mal. Já a abracei, muito, agora também a consigo por vezes abraçar, o problema é ela não se sentir por mim abraçada. Como se eu fosse um fantasma, onde o meu toque não é sentido.
É a vida a acontecer. São os sentimentos novamente a sobrepor. Podemos talvez agora finalmente começar a relatar a história de amor desta personagem. E para que todos fiquem sincronizados, vamos focar na situação do presente. O amor é agora platónico e com isso tudo volta ao início.